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Sessenta anos do Curso de Medicina da UnB

Coluna do Estêvão·

Da monitoria em Histologia à docência na Faculdade de Medicina, da Receita Simples aos pacientes digitais — uma trajetória que sempre voltou à UnB.

Ao pensar nos sessenta anos do Curso de Medicina da Universidade de Brasília, é inevitável que eu percorra também minha própria trajetória. Minha história profissional se confunde, em grande parte, com a UnB. Entrei no Curso de Medicina em 2008, formei-me médico pela Universidade em 2015, retornei posteriormente como preceptor e professor e nela concluí o mestrado e o doutorado em Saúde Coletiva. Entre esses momentos, a Faculdade de Medicina, o Hospital Universitário de Brasília, as unidades do Sistema Único de Saúde do Distrito Federal e, posteriormente, as atividades de pesquisa e inovação em educação médica foram formando um caminho que sempre procurei manter ligado a três elementos: cuidado em saúde, educação e serviço público (ROLIM, 2026).

Minha aproximação com a atividade acadêmica começou ainda nos primeiros anos da graduação. Em 2009 participei de monitoria em Histologia e, posteriormente, em Anatomia Macroscópica. Na mesma época comecei a colaborar com atividades de ensino em Bioquímica e Biofísica e com a produção de conteúdo para o então chamado "Blog de Biobio", no qual mantive a "Coluna do Estêvão". Aquilo que hoje parece simples — estudantes produzindo conteúdo digital para auxiliar outros estudantes — representava, naquele momento, uma experiência inicial de utilização da internet como ferramenta de educação médica. Essa experiência resultou em projetos de iniciação científica sobre ensino de Bioquímica Clínica e uso de blogs, apresentações em congressos nacionais e internacionais e premiação de trabalho nessa área. Vista retrospectivamente, havia ali um elemento que voltaria muitas vezes em minha trajetória: tentar organizar conhecimento médico e utilizar ferramentas tecnológicas disponíveis para torná-lo mais acessível a estudantes, profissionais ou pacientes (ROLIM, 2026).

Ainda durante a graduação, participei de pesquisas em cirurgia bariátrica e metabólica, com apresentações em congressos nacionais e internacionais. Em 2011, um dos trabalhos recebeu premiação no Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Em 2012 tive a oportunidade de apresentar trabalho no Congresso Mundial da International Federation for the Surgery of Obesity and Metabolic Disorders, em Nova Délhi, na Índia. Essa fase foi importante não apenas pela iniciação à pesquisa clínica, mas pelo contato precoce com elaboração de trabalhos científicos, apresentações orais e discussão de resultados fora do ambiente habitual da graduação. O registro histórico da Escola de Pacientes inclui, entre os reconhecimentos dessa etapa, premiação em Bioquímica em 2010 e em cirurgia bariátrica em 2011 (ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026a; ROLIM, 2026).

Outro período marcante foi a graduação-sanduíche realizada pelo programa Ciência sem Fronteiras, em 2013 e 2014, na University of Calgary, em Alberta, Canadá, com atividades também no Alberta Children's Hospital. Além do aprendizado médico, foi uma experiência de amadurecimento pessoal, acadêmico e cultural. Ao retornar à UnB, concluí os estágios finais da graduação com experiências que incluíram Psiquiatria no Hospital Universitário de Brasília e no Adolescentro, Atenção Primária em Sobradinho II, Vila Planalto e Paranoá e estágio rural em Ceres, Goiás. Essas experiências ajudaram a consolidar meu interesse pela medicina generalista e pela Atenção Primária à Saúde (ROLIM, 2026).

Formei-me médico pela UnB em 2015. Logo depois da graduação trabalhei aproximadamente um ano com ensaios clínicos de fase III no Instituto de Pesquisas Clínicas L2, experiência que me aproximou dos processos regulatórios e metodológicos da pesquisa clínica. Paralelamente, comecei a direcionar minha formação para a atenção integral e longitudinal. Fiz pós-graduação em Geriatria e Gerontologia, com trabalho voltado ao perfil dos pacientes de uma unidade básica e ao uso de benzodiazepínicos, e posteriormente pós-graduação em Saúde Pública e Saúde da Família, com trabalho relacionado à organização do cuidado de hipertensão e diabetes no Itapoã. Mais tarde, em 2021, obtive os títulos de especialista, com respectivos registros de qualificação, em Clínica Médica e em Medicina de Família e Comunidade (ROLIM, 2026).

Em 2016 iniciei uma das etapas mais importantes de minha formação profissional: a atuação como médico da Estratégia Saúde da Família da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Meu vínculo assistencial com a SES-DF estendeu-se de 2016 a 2023. No Itapoã, uma região marcada por importantes vulnerabilidades sociais, pude vivenciar de forma intensa o princípio de que a Atenção Primária não é uma medicina simplificada, mas uma medicina de grande complexidade clínica e organizacional, na qual é necessário conhecer as pessoas, suas famílias, seu território e as dificuldades concretas que interferem na possibilidade de realizar um tratamento (ROLIM, 2026).

Em 2016 e 2017, unidades do Itapoã participaram do processo de Planificação da Atenção à Saúde realizado pela SES-DF com apoio do Conselho Nacional de Secretários de Saúde. A UBS 2 do Itapoã tornou-se Unidade Laboratório, com ênfase inicial na organização do cuidado de pessoas com hipertensão, diabetes e maior risco cardiovascular. Atuei como tutor local desse processo. A necessidade de organizar o cuidado de centenas de pessoas com doenças crônicas levou nossa equipe a criar instrumentos muito simples: listas de pacientes, estratificação de risco, modelos de planos terapêuticos, formulários de consulta, prontuários organizados por faixa etária, orientações padronizadas e documentos que ajudassem pacientes e profissionais a compreender melhor aquilo que precisava ser feito. A experiência foi posteriormente apresentada em diferentes congressos e iniciativas do SUS (CONASEMS, s.d.; ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026a).

Foi nesse contexto que surgiu a Receita Simples. O problema observado era cotidiano: pacientes com baixa escolaridade, limitações de visão ou dificuldades de letramento em saúde recebiam prescrições convencionais e muitas vezes não conseguiam identificar adequadamente qual medicamento utilizar e em que horário. Construímos progressivamente um modelo visual de apoio à prescrição, com horários, pictogramas e referências de fácil compreensão. O projeto começou na UBS 2 do Itapoã em abril de 2016 e foi sendo ajustado a partir da utilização no serviço. Em 2017, recebeu o primeiro lugar na categoria de Atenção Primária da I Mostra de Experiências Inovadoras do SUS no Distrito Federal e venceu a categoria Atendimento ao Cidadão do Prêmio Inova Brasília (DISTRITO FEDERAL, 2017a; DISTRITO FEDERAL, 2017b).

A Receita Simples acabou sintetizando uma ideia que se tornou central para mim: inovação em saúde não precisa necessariamente começar por uma tecnologia cara. Muitas vezes, uma folha de papel melhor desenhada, uma pergunta acrescentada à consulta, um fluxo organizado ou uma informação apresentada de maneira compreensível podem modificar o cuidado. O trabalho ganhou ampla divulgação na imprensa e foi submetido a avaliação acadêmica mais rigorosa, o que acabou contribuindo para minha decisão de desenvolver o tema no mestrado (DISTRITO FEDERAL, 2017b; ROLIM, 2019).

Outras ferramentas foram desenvolvidas em paralelo. Criamos a chamada Pasta da Saúde, modelos de prontuário e atendimento por idade, planos de cuidado e materiais de apoio para hipertensão, diabetes, pré-natal, puericultura e outras situações frequentes na Atenção Primária. Uma apresentação posterior dessa experiência registrou milhares de atendimentos realizados no serviço, mais de mil Pastas da Saúde produzidas e centenas de pacientes de maior risco cardiovascular identificados e acompanhados. A intenção nunca foi criar documentos por criar, mas transformar informação dispersa em instrumentos que ajudassem o profissional a cuidar e o paciente a compreender seu próprio cuidado (CONASEMS, s.d.).

A atuação no Itapoã também aproximou de maneira definitiva assistência e educação médica. Em abril de 2016 comecei a receber estudantes e profissionais em formação no serviço. Em reportagem institucional publicada em 2018, já haviam passado pelas unidades da Região Leste dezenas de estudantes e profissionais de Medicina e de outras áreas da saúde. Os alunos do último semestre de Medicina da UnB acompanhavam o trabalho da equipe, atendiam pacientes sob supervisão e participavam dos projetos de organização do serviço. Minha preceptoria do internato da Faculdade de Medicina desenvolveu-se de 2016 a 2023. Também participei de atividades relacionadas à residência multiprofissional e ao PET-Saúde/GraduaSUS (DISTRITO FEDERAL, 2018a; ROLIM, 2026).

Essa convivência com os estudantes foi fundamental. O aluno ajudava o serviço, mas o serviço também se tornava objeto de estudo do aluno. Problemas encontrados numa consulta podiam gerar revisão de literatura, material educativo, apresentação científica, simulação ou proposta de modificação do processo de trabalho. Aos poucos, aquilo que começou como diferentes projetos locais passou a ser compreendido como um conjunto integrado de atividades de educação em saúde para pacientes, educação permanente para profissionais e formação em saúde para estudantes.

Foi desse processo que nasceu, em 2016, a Escola de Pacientes DF. O nome procurava expressar uma inversão importante: o paciente não deveria ser apenas alguém que recebe uma prescrição, mas participante ativo do processo de cuidado e também elemento central da formação dos profissionais. A iniciativa passou a reunir materiais impressos e digitais, orientações clínicas, vídeos, simulações, pastas compartilhadas, ações comunitárias e projetos de pesquisa, articulando Universidade, serviço e comunidade (CUBAS ROLIM, 2021; ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026b).

Entre os projetos comunitários, um dos que guardo com especial carinho é o Prescreva um Livro. Começamos no final de 2016 deixando livros disponíveis no consultório para que crianças e adolescentes pudessem levá-los para casa. A prescrição da leitura passou simbolicamente a acompanhar a prescrição médica. Depois o projeto foi levado a outras unidades do Itapoã e evoluiu para atividades de troca e circulação de livros. Em 2018, a iniciativa recebeu reconhecimento no Prêmio Saúde Cidadã. A experiência parecia simples, mas traduzia bem nossa concepção ampliada de saúde: uma Unidade Básica também pode ser espaço de cultura, formação, acolhimento e criação de oportunidades (ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026a; DISTRITO FEDERAL, 2018b).

Também em 2018, o modelo visual de receituário foi finalista do Laboratório de Inovação em Educação na Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde. A premiação anterior na Mostra SUS permitiu ainda uma experiência de intercâmbio e formação junto ao sistema de saúde da Andaluzia, na Espanha. Em 2019, trabalhos da Escola de Pacientes relacionados a capítulos de autocuidado e ao Acolhimento Tático Operativo foram selecionados no âmbito do Prêmio APS Forte para o SUS. Esses reconhecimentos ajudaram a mostrar que experiências surgidas de problemas muito locais poderiam dialogar com debates mais amplos sobre Atenção Primária, educação e inovação em saúde (ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026a).

A pós-graduação permitiu transformar parte dessas experiências em investigação científica estruturada. Ingressei em 2017 no Mestrado Profissional em Saúde Coletiva da Universidade de Brasília e defendi, em março de 2019, a dissertação "Desenvolvimento e validação de modelo visual de receituário adaptado às necessidades da população com doenças crônicas – Receita Simples", orientada pela professora Dayde Lane Mendonça da Silva. O trabalho utilizou processo formal de validação e procurou transformar uma solução construída no serviço em produto tecnicamente fundamentado e potencialmente reproduzível em outros contextos (ROLIM, 2019).

É particularmente significativo observar o percurso dessa ferramenta. Aquilo que começou em uma sala de atendimento no Itapoã em 2016 foi testado no serviço, premiado em 2017, transformado em dissertação em 2019, publicado cientificamente e, posteriormente, incorporado institucionalmente como instrumento complementar à prescrição formal na Secretaria de Saúde. Em 2026 publicamos a reconstrução dessa trajetória, mostrando a passagem da validação pelo método Delphi até sua incorporação institucional e discutindo possibilidades futuras de integração a sistemas digitais da Atenção Primária (CUBAS-ROLIM et al., 2026).

Minha relação com a docência da Faculdade de Medicina também se ampliou. A partir de 2019 comecei a atuar diretamente nas atividades docentes relacionadas ao Internato em Atenção Primária e Medicina Social e, posteriormente, em componentes de Saúde da Família e Comunidade. A experiência anterior como preceptor ajudou muito: eu já havia percebido que a formação médica ganha força quando o estudante precisa enfrentar problemas reais ou representações suficientemente realistas desses problemas. Em processos seletivos para professor substituto da Faculdade de Medicina, obtive primeira colocação, mantendo posteriormente a atuação docente na Universidade (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, 2025; ROLIM, 2026).

A simulação clínica surgiu dessa mesma necessidade. Começamos em 2016 com estudantes representando pacientes a partir de roteiros impressos e checklists. O objetivo era permitir que outro estudante conduzisse uma consulta, treinando anamnese, raciocínio, comunicação e conduta em ambiente seguro. Não eram necessários manequins sofisticados ou grandes centros de simulação: com um caso bem preparado, dois estudantes e supervisão adequada já era possível criar uma experiência formativa relevante (CUBAS-ROLIM et al., 2025a).

A pandemia de covid-19 acelerou a transformação digital dessas atividades. Parte da assistência e da educação precisou migrar rapidamente para meios remotos. A Escola de Pacientes desenvolveu experiências como o ATO-ZAP, uso estruturado do WhatsApp em situações assistenciais, produção intensificada de material audiovisual e telessimulações. Os roteiros antes utilizados presencialmente passaram também para formulários digitais, permitindo atividades síncronas e assíncronas. Essa fase gerou artigos, apresentações no Congresso Brasileiro de Educação Médica e outras produções sobre educação, comunicação e organização do cuidado durante a pandemia (CUBAS ROLIM et al., 2021a; CUBAS ROLIM et al., 2021b).

Em paralelo, a produção científica da Escola de Pacientes foi se consolidando. Em 2020 foram publicados trabalhos no European Journal of Public Health sobre Receita Simples, autocuidado apoiado por material audiovisual, projeto Prescreva um Livro e simulações para educação permanente em Atenção Primária. Em 2021 foram publicados estudos sobre a metodologia da Escola durante a pandemia, atendimento remoto e acesso à educação em saúde para pessoas com surdez. Em 2023 publicamos trabalhos relacionados à validação da Receita Simples, mídias sociais, pesquisa participativa e autocuidado de pessoas com hipertensão e diabetes. Em 2025 e 2026, novas publicações passaram a documentar de forma sistemática o site, o canal de vídeos, o grupo de pesquisa, o banco de referências, as simulações clínicas e a institucionalização da Receita Simples (ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026c).

Dois livros ajudaram a sistematizar esse percurso. Em 2021 publiquei "Escola de Pacientes DF – Estratégia de Educação Permanente, Formação em Saúde e Educação em Saúde com Integração Ensino-Serviço-Comunidade". Em 2022 organizei "Escola de Pacientes e as Tecnologias de Educação em Saúde", construído com participação de estudantes e colaboradores e voltado às ferramentas desenvolvidas ao longo dos anos. Mais do que registrar produtos, esses livros procuraram documentar uma metodologia de trabalho que pudesse ser conhecida, criticada e reproduzida (CUBAS ROLIM, 2021; CUBAS ROLIM, 2022).

Em 2019 iniciei também o Doutorado em Saúde Coletiva na UnB. Se o mestrado havia partido de um instrumento muito concreto de comunicação entre médico e paciente, no doutorado passei a investigar uma questão mais ampla: o papel das mídias sociais na promoção do autocuidado de pessoas com hipertensão. A pesquisa acabou incorporando uma reflexão sobre os limites da própria promoção do autocuidado num ambiente digital marcado por excesso de informação, cobrança de desempenho e autoexploração.

Defendi em 2025 a tese "Mídias sociais e promoção do autocuidado em hipertensos: desafios emergentes na prática profissional da Atenção Primária à Saúde frente à Sociedade do Cansaço", sob orientação da professora Ana Valéria Machado Mendonça. O trabalho procurou colocar em diálogo Saúde Coletiva, Atenção Primária, comunicação em saúde e a reflexão de Byung-Chul Han sobre a Sociedade do Cansaço. A mesma tecnologia que pode ampliar o acesso à informação e apoiar o autocuidado pode produzir sobrecarga, ansiedade, culpabilização e novas formas de cobrança sobre o indivíduo. Esse equilíbrio permanece uma das questões que mais me interessam na interface entre saúde e tecnologia (ROLIM, 2025).

A partir do final de 2022 e, de forma prática, de 2023 em diante, uma nova tecnologia passou a transformar as possibilidades das simulações: os grandes modelos de linguagem e a inteligência artificial generativa. A Escola de Pacientes já possuía então anos de experiência com roteiros, checklists, simulações presenciais, telessimulações e formulários digitais. Isso foi importante porque nossa entrada na inteligência artificial não começou pela ferramenta tecnológica; começou pelo problema pedagógico e por uma metodologia clínica que já existia (CUBAS-ROLIM et al., 2025a).

Os roteiros passaram a ser convertidos em pacientes digitais conversacionais, inicialmente com o ChatGPT e depois também com agentes dedicados em outras plataformas, como os Gems do Google Gemini. O estudante pode conversar com um paciente virtual, realizar uma anamnese progressiva, solicitar informações, formular hipóteses e propor condutas. Em vez de receber imediatamente toda a história clínica, precisa obtê-la por meio da própria entrevista, aproximando a atividade do raciocínio necessário numa consulta. Em 2025 publicamos artigo descrevendo justamente essa evolução, da representação presencial aos pacientes digitais mediados por inteligência artificial (CUBAS-ROLIM et al., 2025a).

Em 2026, a trajetória acumulada do banco de simulações alcança quase uma década. Os registros consolidados indicam participação de mais de 800 estudantes, distribuídos por 31 turmas e cursos, e mais de dois mil atendimentos simulados. O acervo possui três gerações que continuam coexistindo: roteiros em papel, simulações estruturadas em formulários digitais e pacientes conversacionais baseados em modelos de linguagem. Há ainda dezenas de cenários clínicos em texto aguardando conversão ou publicação. A experiência está sendo sistematizada como um modelo de pacientes digitais de baixo custo, com possibilidade de utilização em diferentes cenários da formação médica e particularmente na Atenção Primária do SUS (CUBAS ROLIM, 2026a).

O trabalho mais recente inclui também um protótipo de plataforma própria para simulações, com possibilidade de utilização de diferentes provedores de inteligência artificial, padronização da autoria dos casos, critérios de avaliação definidos pela equipe e preocupação com anonimização e governança. O propósito não é substituir professores, preceptores ou pacientes reais. É ampliar a oportunidade de treinamento antes que o estudante precise executar determinada habilidade em uma pessoa real. A inteligência artificial, nesse contexto, interessa menos como novidade tecnológica e mais como instrumento para democratizar oportunidades de aprendizado (CUBAS ROLIM, 2026a).

A organização do próprio grupo também mudou. Em 2026, a Escola de Pacientes funciona com forte participação estudantil, coordenação por alunos de Medicina e supervisão de estudantes mais experientes, enquanto exerço a orientação acadêmica do grupo. A intenção é formar não apenas consumidores de conteúdo, mas estudantes capazes de buscar referências, revisar evidências, produzir materiais, avaliar criticamente ferramentas de inteligência artificial, apresentar trabalhos e orientar colegas mais novos. Essa estrutura permite que diferentes gerações de alunos transmitam conhecimento entre si e dá continuidade ao projeto independentemente das turmas que entram e saem da Faculdade (ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026d).

Em 2025, vertentes dessa produção relacionadas à educação e à inovação receberam reconhecimento no âmbito do Prêmio Paulo Freire de Educação da Câmara Legislativa do Distrito Federal. No mesmo período, o grupo apresentou trabalhos no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva sobre pacientes digitais, busca de referências médicas por inteligência artificial, o site da Escola e outras aplicações educacionais. Em 2026, a disseminação das experiências prosseguiu em eventos nacionais e internacionais, incluindo trabalhos relacionados à inteligência artificial, simulações clínicas, educação médica e institucionalização da Receita Simples (CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL, 2025; ESCOLA DE PACIENTES DF, 2026a).

Minha atuação profissional também passou, progressivamente, a envolver outras dimensões da Medicina e da formulação de políticas públicas. Em 2022 fui aprovado em primeiro lugar no concurso para Consultor Legislativo do Senado Federal na área da Saúde e tomei posse em 2023. Desde então, atuo como servidor efetivo da Consultoria Legislativa. Essa atividade me colocou diante de outra perspectiva sobre o sistema de saúde: além de cuidar de pacientes, ensinar estudantes e realizar pesquisa, passei a trabalhar diretamente com análise de políticas públicas, legislação sanitária, organização do SUS e temas relacionados à profissão médica (BRASIL, 2026; ROLIM, 2026).

Também em 2023 fui eleito conselheiro efetivo do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal para a gestão 2023–2028 e passei a integrar sua Diretoria. A participação no Conselho acrescentou à minha trajetória o contato permanente com ética médica, exercício profissional, regulação da Medicina e responsabilidade das instituições médicas (CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO DISTRITO FEDERAL, 2026).

A partir de 2025 comecei ainda a atuar como médico perito judicial cadastrado no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Essa nova atividade foi acompanhada de formação complementar em Perícia Criminal e Judicial e Direito Médico. Também concluí formação em Educação Superior e mantive aperfeiçoamentos voltados a outros campos, preservando como fio condutor a integração entre Medicina, educação, saúde pública, tecnologia e Direito (ROLIM, 2026).

Quando observo esse percurso, percebo que grande parte dele retorna constantemente à Universidade de Brasília. Entrei na Faculdade de Medicina como estudante. Aprendi ali a pesquisar, apresentei meus primeiros trabalhos científicos, fui monitor, participei de grupos de estudo e tive acesso a experiências internacionais. Depois levei alunos da mesma Faculdade para dentro da equipe de Saúde da Família onde trabalhava. Mais tarde retornei formalmente como docente. As dificuldades que encontrávamos no serviço tornaram-se perguntas de pesquisa; as perguntas de pesquisa voltaram ao serviço na forma de ferramentas; e essas ferramentas acabaram sendo utilizadas para ensinar novas gerações de estudantes.

Talvez essa seja a principal contribuição que eu gostaria de registrar nas comemorações dos sessenta anos do Curso de Medicina da UnB. A formação médica não ocorre apenas dentro da sala de aula, do laboratório ou do hospital universitário. Ela se completa quando a Universidade consegue dialogar com o SUS, com os territórios, com as necessidades concretas da população e com as transformações tecnológicas de seu tempo.

Da Receita Simples aos pacientes digitais, há uma linha comum: tentar diminuir barreiras. Em um caso, a barreira era a dificuldade de um paciente compreender uma prescrição. Em outro, era a dificuldade de um estudante ter acesso a uma situação clínica suficientemente diversa para praticar. Mudam as ferramentas — papel, pictogramas, vídeos, formulários, mídias sociais ou inteligência artificial —, mas o objetivo permanece semelhante: utilizar conhecimento e tecnologia para tornar a Medicina mais compreensível, mais segura, mais equitativa e mais humana.

As ferramentas atuais de inteligência artificial provavelmente parecerão rudimentares daqui a alguns anos. O que espero que permaneça é o princípio que orientou os projetos desde o início: nenhuma tecnologia deve afastar a formação médica do paciente. Ao contrário, ela só tem sentido quando ajuda o estudante a escutar melhor, raciocinar melhor, comunicar-se melhor e cuidar melhor.

Depois de ter começado minha vida acadêmica como aluno da Faculdade de Medicina da UnB, considero especialmente significativo poder participar hoje da formação de seus estudantes e contribuir, ainda que modestamente, para uma história institucional muito maior do que qualquer trajetória individual. Os sessenta anos do Curso de Medicina representam seis décadas de professores, estudantes, pacientes, servidores e instituições que construíram diferentes maneiras de ensinar e exercer a Medicina em Brasília.

Espero que os próximos anos mantenham aquilo que considero uma das maiores forças dessa tradição: a capacidade de transformar o serviço em espaço de aprendizado, a Universidade em instrumento de transformação social e o paciente na razão principal de tudo aquilo que fazemos.

Brasília, 15 de agosto de 2026.

Estêvão Cubas Rolim

Referências

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CONASEMS — CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE. Pasta da Saúde, Receita Simples, Prontuário por Idade, Pré-Estruturado e Planos de Cuidado: ferramentas de gestão clínica na UBS 2 Itapoã — Unidade Laboratório da Planificação SES-DF. Brasília, DF, [s.d.]. Disponível em: https://portal.conasems.org.br/brasil-aqui-tem-sus/experiencias/469_pasta-da-saude-receita-simples-prontuario-por-idade-pre-estruturado-e-planos-de-cuidado-ferramentas-de-gestao-clinica-na-ubs2-itapoa-unidade-laboratorio-da-planificacao-ses-df. Acesso em: 15 ago. 2026.

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Edital de Abertura nº 054/2025 — processo seletivo simplificado para professor substituto. Brasília, DF: UnB, 2025. Disponível em: https://www.concursos.unb.br/index.php/editais-temporario/temporario-2025/2336-edital-de-abertura-n-054-2025. Acesso em: 15 ago. 2026.

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